Uma conversa entre os escritores latino-americanos Marcial Gala e Kátia Bandeira de Mello fotos de Gisele Velázquez

Marcial Gala é um dos mais destacados escritores cubanos da contemporaneidade. A sua obra narrativa transcende fronteiras e ressoa com força no cenário literário internacional. Nascido em Havana, Cuba, em 1965, Gala é romancista, poeta e arquiteto, radicado em Buenos Aires há uma década. ​A partir de uma escrita envolvente e sensível, Gala, cuja carreira é marcada por diversos prêmios e reconhecimento da crítica, trata de dilemas que afetam a humanidade tecendo paralelos com a tradição grega.

Seu primeiro romance, La catedral de los negros (2012), conquistou o Prêmio Alejo Carpentier, além do Prêmio da Crítica para os melhores livros publicados em Cuba naquele ano. Outros títulos notáveis incluem Sentada en su verde limón (2004) e Rocanrol (2006), consolidando-o como uma das vozes mais expressivas da América Latina.

O seu romance Me chama de Cassandra (Llámenme Casandra), publicado no Brasil pela Biblioteca Azul, em 2023, rendeu-lhe o Prêmio Ñ em 2018, concedido pelo Instituto Cervantes para destacar personalidades que promovem a excelência da língua espanhola. Na obra, Gala dá vida a Raul, um jovem cubano que, como a mítica Cassandra de Tróia, prevê o futuro, mas não encontra quem a ouça. Em meio ao cenário da guerra em Angola e à dura realidade de Cienfuegos, a narrativa entrelaça história, identidade e destino de forma potente e comovente.

Com um estilo que equilibra lirismo, crueza e uma empatia profunda por seus personagens, Gala transforma a literatura em um reflexo poderoso de dores, sonhos e contradições inerentes à existência.

Marcial Gala pelas lentes de Gisele Velázquez.

Na Philos, apresentamos uma entrevista inédita em português cedida pelo autor para a nossa editora Kátia Bandeira de Mello. Desejamos-lhes uma boa leitura:

Você poderia contar para a gente um pouco sobre a sua infância, e como ela vem a influenciar as suas personagens? Haveria uma conversação entre a sua versão criança e as personagens que tomam vida nos seus livros?

Tive uma infância onde o assombro constituía uma das minhas partes preferidas, a fascinação pela arte, literatura e o que mar que, em Havana onde nasci, e em Cienfuegos era o mais esplêndido. Por isso, muitos dos meus personagens vivem extasiados pela beleza da arte e da literatura e para eles o mar é uma panaceia, a salvação. Nasci em uma família formada por um engenheiro e uma secretária profissional e a minha infância foi muito protegida do ponto de vista econômico. Nesse tempo em Cuba não se passava fome.

¿Podrías contarnos un poco sobre tu infancia y cómo llega a influir en tus personajes? ¿Hay una conversación entre tu versión infantil y los personajes que cobran vida en tus libros?

Yo tuve una infancia donde el asombro constituyó una de mis partes favoritas, fascinación por el arte, la literatura y el mar que en La Habana donde nací, y en Cienfuegos era lo más espléndido. Por eso muchos de mis personajes viven extasiados por la belleza del arte y la literatura y para ellos el mar es panacea, salvación. Yo nací en una familia conformada por un ingeniero y una secretaria profesional y mi infancia fue muy protegida desde el punto de vista económico. En ese tiempo en Cuba no se pasaba hambre. 

O que seria Cienfuegos? Capital do mundo? Como se compara a Buenos Aires onde você se firmou na última década? Ser escritor significa o mesmo nesses dois lugares?

Cienfuegos é uma cidade pequena e periférica do Caribe, a última fundada pelos espanhóis em Cuba, já no século 19 e Buenos Aires é uma metrópole com tudo o que isso significa, de tal modo que são lugares diferentes. Cienfuego capital do mundo é um ciclo construído por três novelas: A Catedral dos Negros, Chamem-me Cassandra e A Máquina de ser feliz. As três obras começam nesta cidade mas depois os seus personagens levam Cienfuegos mundo afora. Cuba é um país de diásporas, de onde partir é muito comum.

¿Qué sería Cienfuegos? ¿Capital del mundo? ¿Cómo se compara con Buenos Aires, donde se ha establecido en la última década? ¿Ser escritor significa lo mismo en estos dos lugares?

Cienfuegos es una pequeña y periférica ciudad del Caribe, la última que fundaron los españoles en Cuba, ya en el siglo 19 y Buenos Aires es una metrópoli con todo lo que eso indica, así que son sitios diferentes. Cienfuegos capital del mundo es un ciclo conformado por tres novelas: La catedral de los negros, Llámenme Casandra y La máquina de ser feliz. Las tres obras empiezan en esa ciudad pero luego sus personajes llevan a Cienfuegos por el mundo. Cuba es un país de diaspora, donde el irse es muy común. 

Quais livros você carregou na mudança?

Um compêndio de Robert Graves sobre mitologia grega e um livro de poesia de Raúl Hernández Nova, poeta imenso cubano que merece ser mais conhecido.

¿Qué libros llevaste contigo en la mudanza?

Un compendio de Robert Graves sobre mitología griega y un libro de poema de Raúl Hernández Nova, enorme poeta cubano que merece ser mejor conocido.

Marcial Gala pelas lentes de Gisele Velázquez.

No seu livro “A Cátedral dos Negros”, o personagem, um imigrante, diz: “Yo víne aqui a triunfar”. É uma frase curta mas poderosa. As suas personagens triunfam? Quem vence, eles, você, o leitor?

Depende do que nós entendemos por triunfo, o personagem Gringo que diz essa frase termina sendo executado em uma câmara de gás e se pergunta muitas coisas no tempo em que passa na prisão, indaga sobre quem é até chegar a uma conclusão, talvez isso seja uma forma de triunfo. As minhas outras personagens também não lhes vai  muito bem desde o ponto de vista do triunfo convencional, mas terminam descobrindo que há algo neles que os faz excepcionais de algum modo, creio que isso se passa conosco em um ou outro momento.

En su libro “La catedral de los negros”, el personaje, un inmigrante, dice: “Vengo aquí a triunfar”. Es una frase corta pero poderosa. ¿Triunfan tus personajes? ¿Quién gana, ellos, tú, el lector?

Depende lo que entendamos por triunfo, el Gringo personaje que dice esa frase termina siendo ejecutado en la cámara de gas y en el tiempo que pasa en prisión se pregunta muchas cosas, indaga sobre quién es hasta llegar a una conclusión, tal vez eso sea una forma de triunfo. A los otros personajes de mis libros tampoco les va muy bien desde el punto de vista de triunfo convencional, pero terminan descubriendo que hay algo en ellos que los hace excepcionales de cierta forma, creo que eso nos va a pasar a todos en un momento o otro.

A figura do anti-herói nos dias de hoje suplanta a do herói?

Pode ser, vivemos marcados pelo assombro e a falta de horizontes, descobrimos que somos menos do que as formigas num universo em expansão que não nos leva a parte alguma, isso afeta o sentido da transcendência que caracteriza o herói clássico.

¿La figura del antihéroe suplanta hoy a la del héroe?

Puede ser, vivimos signados por el asombro y la falta de horizontes, hemos descubiertos que somos menos que hormigas en un universo en expansión que no nos lleva a ninguna parte, eso afecta el sentido de la trascendencia que caracteriza al héroe clásico. 

Como Cassandra, já se passou com você prever o futuro e lidar com os efeitos de uma profecia?

Não, talvez por isso me dedico à literatura porque não posso ser um oráculo, alguém com o poder de ver, sou alguém que testemunha o que os outros vêem.

Al igual que Casandra, ¿alguna vez le ha sucedido predecir el futuro y lidiar con los efectos de una profecía?

No, tal vez por eso me dedico a la literatura porque no puedo ser un oráculo, alguien con el poder de “ver” sino alguien que atestigua lo que los otros ven.

Você esteve em Angola e na antiga União Soviética ou as suas impressões são essencialmente do ponto de vista de alguém que vive em Cuba?

O meu pai esteve nestes lugares e eu quase fui à Angola.

¿Ha estado en Angola y en la antigua Unión Soviética o sus impresiones son esencialmente desde el punto de vista de alguien que vive en Cuba?

Mi padre estuvo en esos dos lugares y estuve a punto de ir a Angola.

O protagonista de “A Máquina de Ser Feliz” é um inescrupuloso alpinista social. Os critérios de justiça de Xangô se aplicariam a Marcel?

Talvez, isso acontece com todos nós quando um dia acaba a nossa luz e já não nos acontecem coisas boas e então temos de ser fortes. “Soltar a mão de Deus” é uma frase bem antiga que tem uma potência muito forte. Marcel é um personagem que se identifica com o mal e que como bom matemático vive fazendo cálculos que no fim servem apenas para garantir que, em geral, o azar pende tanto para o bem quanto para o mal.

El protagonista de “La máquina de ser feliz” es un trepador social sin escrúpulos. ¿Se aplicarían los criterios de justicia de Xangô a Marcel?

Tal vez, a todos nos pasa que un día se termina nuestra luz y ya no nos pasa cosas buenas y entonces hay que ser fuerte. “dejado de la mano de Dios” es una frase muy antigua que tiene una pujanza muy fuerte. Marcel es un personaje que se identifica como malo y que como bien matemático vive haciendo cálculos que al final solo le sirven para atestiguar que a la larga el azar prima para bien o para mal. 

Marcial Gala pelas lentes de Gisele Velázquez.

Nas suas vindas ao Brasil, descobriu algum escritor ou escritora do qual gostasse?

Em uma dessas viagens, tive a sorte de coincidir com Agualusa, a quem muito admiro, o seu grande romance “Teoria geral do esquecimento” é uma obra que adoro, e em Buenos Aires conheci Ferrez e o seu “Manual prático do ódio” que me pareceu uma bela obra.

En tus visitas a Brasil, ¿descubriste a algún escritor que te gustara?

En uno de esos viajes, tuve la suerte de coincidir con  Agualusa muy admirado por mí, su gran novela “Teoría general del olvido” es  una obra que amo, y en Buenos Aires había conocido ya a Ferrez y su “Manual práctico del odio” me parece una obra hermosa.  

Como é o seu relacionamento literário com os orixás? Xangô o guia de alguma forma?

É uma relação sobretudo poética e de amor pela minha herança dos antepassados africanos, da tamanha importância que tem a religiosidade dos povos cubanos, brasileiros e outros. Recebi uma educação ateia no ensino básico e a esta altura já me considero agnóstico, enxergo o divino, o misterioso em todas as partes e muito nos orixás.

¿Cómo es tu relación literaria con los orixás? ¿Xangô lo guía de alguna manera?

Es una relación sobre todo poética y de amor por la herencia de mis antecesores africanos, que tan importante es en la religiosidad de los pueblos cubanos, brasileños y otros.  Yo tuve una educación atea en lo básico y a estas alturas me identifico como agnóstico, veo a lo divino, a lo misterioso, en todas partes y en los orishas, mucho.

Quais os seus poetas de predileção? Algum poema que gostaria de trazer para os nossos leitores?

Pessoa, Lezama, TS Elliot, Carlos Drummond de Andrade, Nicolás Guillén, Borges, Fina Garcia Marruz, Ángel Escobar, Raúl Hernández Novás… são muitos.

Este é um poema de Fina García Marruz:

VERBOS IMPESSOAIS 

Por não poder dizer
que
havendo chovido eu
em algumas tardes
anoiteci-me sem remédio
se não estivesses comigo,
por não posso dizer
o quanto
neva naquele abril nefasto
ou afundara ela
a todos nós?

Não tenha medo!

Brincaremos com a neve.

¿Quiénes son tus poetas favoritos? ¿Algún poema que te gustaría traer a nuestros lectores?

Pessoa, Lezama, T S Eliot, Carlos Drummond de Andrade, Nicolás Guillén, Borges, Fina García Marruz, Ángel Escobar, Raúl Hernández Novás… son tantos. 

Esse es un poema de Fina García Marruz:

VERBOS IMPERSONALES

Por qué no puedo decir
que
habiendo llovido yo
algunas tardes
anocheciera sin remedio
si no estuvieses conmigo,
por qué no puedo decir
cuánto
nevé aquel abril infausto
o escarchará la dicha
para todos?

No tengas miedo!

Jugaremos con la nieve.

Marcial Gala pelas lentes de Gisele Velázquez.

Você me contava que escreve em um “espanhol latino-americano”, como é isso?

Já não posso escrever no espanhol cubano como antes, passei anos longe da ilha, assim que os sotaques latino-americanos, as formas distintas de falar em espanhol me influíram e, claro, o jeito de falar argentino é muito importante para mim, ainda que eu continue usando o “tu” e não o “você” tão típico nessas terras.

Me dijiste que escribes en “español latinoamericano”, ¿cómo es eso?

Ya no puedo escribir en cubano como antes, llevo años fuera de la isla, así que los acentos latinoamericanos, las distintas formas de hablar en español me influyen y claro, la manera argentina es muy importante para mí, aunque sigo usando el “tú” y no el voceo tan típico de estas tierras. 

Você vê na modernidade uma força capaz de exaurir o potencial criativo? 

Não sei, pode ser que sim, com tudo isso da inteligência artificial, não sei ao que devemos nos ater, mas, claro tenho esperanças de que sempre haja gente jovem disposta a avançar na sua arte.

¿Ves en la modernidad una fuerza capaz de agotar el potencial creativo?

No lo sé, puede que sí, con todo esto de la inteligencia artificial no sé a que debemos atenernos, pero claro, tengo esperanzas de que siempre haya gente joven dispuesta a avanzar en sus artes.  

Quais as suas considerações sobre a delimitação literária dos gêneros? A revolução veio da América Latina? Como Cassandra prevê “o romance do futuro”?

Não é um tema que me pareça atraente, sinto que a esta altura a gente escreva o que deseja, sem se perguntar a que gênero pertence, isso é bom, penso que se amanhã, contudo, ainda existir a literatura, isso se deverá à confluência de gêneros, a busca pelo valor literário.

¿Cuáles son tus consideraciones sobre la delimitación literaria de los géneros? ¿La revolución vino de América Latina? ¿Cómo imagina Cassandra “el romance del futuro”?

No es un tema que me parezca atrayente, siento que a estas alturas la gente escribe lo que desea, sin preguntarse a que género pertenece, eso es bueno, pienso que si mañana todavía hay literatura será por esa confluencia de géneros, esa búsqueda del valor literario. 

Qual a sua caminhada preferida na capital portenha? Alguma livraria que você frequenta?

Vou frequentemente a calle Corrientes e a avenida Cabildo, visito essa livraria chamada Ateneo del Cabildo y Juramento onde ofereço oficinas literárias e faço revisões literárias. Gosto de percorrer Buenos Aires pelas ciclovias, gosto muito de andar de bicicleta porque chego a lugares mais distantes.

¿Cuál es tu paseo favorito por la capital bonaerense? ¿Alguna librería que frecuentas?

Voy mucho a calle Corrientes y a la avenida Cabildo, voy a esa librería el Ateneo de Cabildo y Juramento donde suelo dar talleres literarios y reviso obras. Me gusta recorrer Buenos Aires por las sendas para ciclistas, me gusta mucho andar en bici y llego a los lugares más lejanos. 

Você sente algo em comum com Witold Gombrowicz, o grande escritor polonês que se mudou para a Argentina pouco antes da 2ª guerra mundial?

Pouco, talvez o assombro pelo tanto que é divertido ser argentino.

¿Tiene algo en común con Witold Gombrowicz, el gran escritor polaco que se mudó a la Argentina poco antes de la Segunda Guerra Mundial?

Poco, tal vez el asombro por lo desopilante de ser argentino. 

O grande hype do momento é a inteligência artificial. Ela deveria nos assustar?

Sim, e muito.

El gran bombo del momento es la inteligencia artificial. ¿Debería asustarnos?

Y sí y mucho.

Marcial Gala pelas lentes de Gisele Velázquez.

Haveria uma depreciação do termo Utopia diante dos avanços tecnológicos?

Não sei.

¿Habría una depreciación del término utopía frente a los avances tecnológicos?

No lo sé.

Como posicionar o escritor passados agora já um quarto deste século?

É um foco de resistência contra a falta de sentido dos avanços tecnológicos que nos fazem acreditar que as coisas que nos tornaram humanos já não valem a pena, nunca foi tão importante e valioso do que no momento atual o trabalho do criador, do intelectual, daquele que se atreve a dizer: pensem.

¿Cómo posicionar al escritor ahora un cuarto de este siglo?

Es un foco de resistencia, al sin sentido de los avances tecnológicos que hacen creernos que las cosas que nos hicieron humanos ya no valen la pena, actualmente nunca ha sido más importante y valiosa la labor del creador, del intelectual, del que se atreve a decir piensen. 

A globalização de ideias facilita ou atrapalha o processo criativo em geral?

Acredito que o bom seja a cultura pertencer a todos.

¿La globalización de las ideas facilita o dificulta el proceso creativo en general?

Creo que es bueno que la cultura sea de todos. 

Para fechar, se você tivesse que escolher alguns humanos para representar a raça humana em outro planeta, saberia quem enviar?

A Arundhati Roy e no caso que negassem, Salman Rushdie e se ele não pudesse, Charly Garcia e se não aceitasse, Milton Nascimento.

Para terminar, si tuvieras que elegir a algunos humanos para representar a la raza humana en otro planeta, ¿sabrías a quién enviar?

A Arundhati Roy y en caso de que se negara, a Salman Rushdie y si no puede, a Charly García y de negarse, a Milton Nascimento. 


Kátia Bandeira de Mello é escritora, poeta e artista visual natural do Rio de Janeiro, divide o seu tempo entre Miami, Flórida e Lisboa, Portugal; após residir por mais de duas décadas em Nova Iorque. Autora de diversos livros de ficção, poesia e ilustrações publicados. É editora e curadora da Revista Philos e membro do coletivo Red Thread Art Studio (Miami).

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Publicado por:Philos

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